Caderno de práticas · Fim do ano letivo
Fanzine e poesia blackout: duas atividades leves para o fim do ano
Pouco material, muita criação e um resultado que cada estudante leva para casa. Aqui está o passo a passo das duas, com exemplos prontos, adaptações para cada etapa e um jeito bonito de fechar o ano com a turma.
- Etapas1º ano ao Ensino Médio e EJA
- Tempo1 a 2 aulas cada
- MaterialFolha A4, tesoura, cola, páginas usadas
- ResultadoUm livrinho, um poema e um varal
Quando chegam as últimas semanas de aula, a turma já está com a cabeça nas férias, as provas acabaram e sobra pouco tempo para começar algo grande. É justamente aí que atividades curtas, com cara de ateliê, funcionam: cada estudante produz algo seu, lê o que escreveu para os colegas e vai para casa com um registro do ano.
O fanzine e a poesia blackout cabem nesse momento porque pedem pouco material, aceitam qualquer nível de escrita e terminam numa peça que dá orgulho de mostrar. Dá para fazer as duas na mesma semana, ou escolher uma só.
Fanzine: um livrinho de 8 páginas feito com uma folha só
Fanzine (ou só zine) é uma revistinha artesanal, feita à mão, com recortes, desenhos e texto. A palavra vem de fan + magazine: começou como revista de fã e virou um jeito livre de publicar qualquer assunto. Na escola, ele é perfeito para o fim do ano porque cada página é curta e o estudante decide o que vai em cada uma.
O formato mais prático é o minizine de uma folha: com uma folha A4, uma dobradura e um único corte, você tem um livrinho de 8 páginas, sem grampo e sem cola.
Materiais
- 1 folha A4 ou sulfite por estudante (e algumas extras para rascunho);
- tesoura e cola em bastão;
- revistas, jornais, panfletos e livros que iam para o lixo, para recortar letras e imagens;
- canetinhas, lápis de cor, giz de cera e, se houver, fita colorida, carimbos e adesivos;
- um tema combinado com a turma.
Como dobrar o fanzine: passo a passo
- Dobre e marque
Dobre a folha ao meio três vezes (comprido, largura, largura de novo) e abra. Ficam 8 retângulos marcados pelos vincos.
- Faça um corte só
Dobre a folha ao meio pela largura e corte o vinco do meio, só entre os 2 retângulos centrais. Abra: há um buraco no meio da folha.
- Empurre e feche
Dobre no comprido, segure as pontas e empurre para o centro até o buraco abrir e a folha formar um sinal de mais (+). Feche as abas como um livrinho: a capa fica por fora.
Peça que a turma dobre o livrinho primeiro e numere as páginas a lápis, bem de leve (capa, 1 a 6 e contracapa). Depois é só abrir e desenhar. Metade das páginas fica de ponta-cabeça na folha aberta, e é assim mesmo: quando dobra, tudo se acerta.
Como planejar as 8 páginas
Antes de colar qualquer coisa, cada estudante faz um rascunho rápido do que vai em cada página. Funciona bem pensar o zine como uma pequena história, com começo, meio e fim:
| Página | O que pode ir | No exemplo “Mar” |
|---|---|---|
| Capa | Título com letras recortadas, nome do autor, turma | “MAR”, releitura da crônica de Rubem Braga, 8º ano B |
| Páginas 1 e 2 | Começo: onde, quando, quem | “Eu nunca tinha visto o mar…” com uma foto de revista colada com fita |
| Páginas 3 e 4 | O acontecimento, a descoberta | “…e ele era maior que o céu!”; “O mar não cabe no olho”, com desenho de três amigos |
| Páginas 5 e 6 | Detalhes, sentimentos, uma lista, um desenho grande | Ondas desenhadas, palavras soltas como “sal” e “verão” |
| Contracapa | Um recado final, uma pergunta, a data | “Para quem ainda vai ver o mar pela primeira vez” |
Exemplo: o fanzine “Mar”
Neste exemplo, a proposta foi fazer uma releitura da crônica “Mar”, de Rubem Braga. O texto do zine é do estudante: ele não copiou a crônica, contou a própria primeira vez diante do mar. Repare como a página mistura três linguagens: letras recortadas de revista, uma imagem colada com fita e desenho feito à mão.
Ideias de tema para o fim do ano
- Meu ano em 8 páginas: um momento marcante por página.
- O que aprendi e vou levar: conteúdos, amizades, descobertas.
- Recado para a turma do ano que vem: dicas, avisos e segredos da escola.
- Zine da turma: cada estudante faz uma página e o professor monta um zine coletivo, como o “Recreio” da imagem de capa.
- Releitura de um texto lido no ano: uma crônica, um conto, um poema reescrito com a cara do estudante.
Fita colorida, carimbo, adesivo, papel de presente, letra desenhada com sombra… O zine aceita tudo. Para quem diz que “não sabe desenhar”, recorte e colagem resolvem: o importante é a escolha do que entra em cada página.
Poesia blackout: o poema já está escondido na página
Na poesia blackout (também chamada de poesia apagada), o estudante pega um texto que já existe, uma notícia, uma página de revista ou de um livro descartado, escolhe algumas palavras na ordem em que aparecem e cobre todo o resto. O que sobra é um poema novo. A técnica ficou conhecida com o escritor Austin Kleon, que fazia poemas riscando colunas de jornal com caneta preta, e é parente da “poesia encontrada”.
Ela funciona muito bem com quem trava diante da folha em branco: as palavras já estão ali, é só ler com atenção e escolher. E ainda treina leitura, vocabulário e concisão sem parecer exercício.
Poesia blackout: passo a passo
- Escolha e leia
Uma página usada: jornal, revista, livro descartado ou um texto xerocado. Leia inteira, sem pressa, antes de marcar qualquer coisa.
- Circule a lápis
Circule as palavras do poema na ordem em que aparecem na página, de cima para baixo. De 5 a 15 palavras costuma dar certo. Leia em voz baixa para ver se faz sentido.
- Cubra e ilustre
Cubra o resto com canetinha ou guache, preta ou colorida, e junte desenhos e traços próprios ao poema. O desenho pode ser o próprio “apagador”: um céu, um mar, um campo que esconde as outras palavras.
Exemplo: da notícia ao poema
Uma notícia comum, dessas que iam para o lixo, vira matéria-prima. Este é o texto original:
A estudante leu a notícia “Último sinal encerra semestre”, circulou as palavras a escola ficou, em silêncio, mas, cada um, levou, um pedaço e do ano, e cobriu o resto pintando um mar com sol e barco. O poema que sobrou:
a escola ficou em silêncio,
mas cada um levou
um pedaço do anoPoesia blackout feita a partir de uma notícia de jornal.
Outro exemplo, com cobertura colorida: o céu de noite, a colina e as duas crianças escondem as palavras que não entraram.
Experimente aqui: faça o seu blackout
Toque nas palavras que vão ficar, na ordem do texto. Depois toque em “Apagar o resto”. Dá para mostrar na TV da sala antes de a turma ir para o papel.
0 palavras escolhidas. De 5 a 15 costuma dar certo.
Livro da biblioteca, não! Use só páginas que iam para o lixo: jornal velho, revista doada, livro descartado ou um texto xerocado.
Leia as notícias antes de entregar à turma, para evitar temas pesados ou que exponham alguém da comunidade.
Para fechar: o varal de zines e poemas
Na última aula, estique um barbante na sala (ou no corredor) e pendure tudo com prendedores. Fica bonito e dá sentido ao trabalho: o que foi feito vai ser visto.
- Roda de leitura: cada estudante lê uma página do zine ou um verso do blackout em voz alta.
- Troca: os zines circulam pela sala antes de ir para casa; quem quiser deixa um bilhete no verso.
- Registro: fotografe o varal (sem o rosto dos estudantes, se não houver autorização). É a memória do ano.
Adaptações para cada etapa
| Etapa | Fanzine | Poesia blackout |
|---|---|---|
| 1º e 2º anos | Zine de desenhos com uma palavra ou frase por página; a folha já vai vincada. | Texto curto em letra bastão grande; o professor sugere 3 a 5 palavras e a turma escolhe entre elas. |
| 3º ao 5º ano | “Meu ano em 8 páginas”, com frases curtas e recortes. | Notícia curta ou trecho de livro; de 5 a 8 palavras; cobertura colorida com desenho. |
| 6º ao 9º ano | Releitura de um texto lido no ano ou zine temático (esporte, música, games). | Notícias e reportagens; discutir o sentido novo que as palavras ganham fora do contexto. |
| Ensino Médio | Zine de opinião, de memórias do ciclo ou de despedida da escola. | Páginas de clássicos descartados ou de textos do Enem; comparar o poema com o texto de origem. |
| EJA | Zine de memórias: “o que eu aprendi este ano”, receitas, histórias de família. | Notícias do bairro ou da cidade; valorizar a leitura do mundo de cada estudante. |
Para estudantes em processo de alfabetização ou com deficiência, entregue a folha do zine já dobrada e numerada, e a página do blackout com algumas palavras já sublinhadas como sugestão. Letra maior e menos texto na página ajudam a turma toda.
O que a turma aprende
- Leitura atenta: no blackout, ler a página inteira e escolher palavras é um exercício de compreensão e vocabulário.
- Produção de texto com propósito: o zine pede planejamento, sequência e revisão, e tem leitores de verdade.
- Multimodalidade: texto, imagem, cor e diagramação conversam, como nas práticas de linguagem do campo artístico-literário da BNCC.
- Oralidade: a roda de leitura no varal dá voz a quem quase não fala em sala.
Para avaliar sem pesar, observe três pontos: se o estudante planejou as páginas ou as palavras, se o resultado tem sentido completo e se ele participou da leitura final.
Perguntas frequentes
Dá para fazer o fanzine sem tesoura?
Dá. Sem o corte, a folha dobrada vira um livrinho sanfonado de 8 partes. A tesoura só é necessária para o corte central do minizine; o professor pode fazer esse corte antes.
Qual papel funciona melhor para a poesia blackout?
Jornal e páginas de livro aceitam bem canetinha; para guache, prefira papel mais grosso ou cole a página numa folha sulfite antes de pintar. Textos xerocados também funcionam e permitem que a turma toda use a mesma página.
Quanto tempo leva cada atividade?
O blackout cabe em uma aula de 50 minutos. O fanzine costuma levar duas: uma para planejar e dobrar, outra para montar e ilustrar. O varal fecha em uma aula.
Dá para fazer no computador?
Sim. O blackout pode ser feito num editor de texto, pintando de preto o fundo das palavras que saem; o zine, num editor de slides com 8 quadros. Mas o papel tem uma graça que a tela não tem, e a turma leva o resultado para casa.
Posso juntar as duas atividades?
Pode e fica ótimo: o poema blackout vira uma das páginas do zine. É um jeito de fazer as duas em menos aulas.
Texto e revisão: por professor de Língua Portuguesa da rede pública, com apoio do Claude (IA, da Anthropic). As fotos sobre a carteira são ilustrações geradas com IA no vidIQ. Conheça quem faz a Feitio.